Aborto
Quis te abraçar
e agora me arrebento
com uma coisa inútil
vociferando
triturando-se em meu peito
a cobrar
o vazio que deixei
entre nós dois
Apenas um impulso
um tempo
um segundo
um rubor
e o contentamento de ter se consumido.
E tudo se derreteu
no frio ocioso do nosso raciocínio
na eloquência da falsa moral
no compromisso de continuarmos
os estranhos de antes;
os sedentos
os famigerados
e distindos viventes
da seara do podia ter sido
e nada mais.
Quis te abraçar demorardo
até sentir o teu coração acanhado
o silêncio do teu corpo
e permanecer trotando no calor
que somos nós, na contingência,
também ardente
ardorosa
convicente
de dois corpos que se ligam
com a liga, que nos fez nascer, antes.
Quis te falar, sem palavras,
e me encontro aqui,
assim, desse jeito
querendo te alcançar
com meu grito, mudo,
— com meu pensamento —
com os meus sentimentos
envolvendo a existência
e me anulando
na tua ausência
— esse sufoco —
Queria te falar com os olhos
com os braços, com o peito,
com tuas lágrimas se misturando nas minhas.
Com a minha dor.
Com o sentimento
dessa impotência
de não ter conseguido
te amarrar
dentro de mim.
Queria te falar
e quero ainda
com toda a fome de tantos
e tantos pensamentos emendados.
Queria te falar
e choro agora
como se o choro fosse o único alento
como se o pensamento fosse o único veículo
que tenho agora
para te tocar.
Mas quero te tocar com as mãos
e te amar de perto
e quero repartir contigo
todo o amor que me engolfa, agora.
Quis te dizer muitas coisas
mas me engoli
a cada sílaba
e não me contive, calado
e chorei
na solidão do meu segredo.
Agora,
quando tudo passou,
fico a recolher pedaços
e remendar recordações
do que poderia ter sido.
Te perdi, suponho,
bem antes de ter conseguido
sofrer contigo
uma separação, e lamento agora
mais esse aborto de meus sentimentos
—
Poema do livro “Pão dormido”, de Roberto Ribeiro de Andrade
--------------------------------------------------------------------------------